terça-feira, 30 de outubro de 2007

Tudo diferente

Diante de um longo período de inquietações, deparei de repente com a tão desejava paz. Uma tranqüilidade buscada nas últimas semanas, procurada em apuros, sem quaisquer vestígios de sucesso.
Sem espera, ela reapareceu, numa noite de clima agradável, depois de um belo dia. Chegou descortinando, limpando nuvens escuras do meu céu, clareando pensamentos e idéias obscuras.
Lá fora tudo parecia estar igual. A noite seguia no mesmo ritmo de sempre, rumo à madrugada. Mas aqui dentro havia a sensação de que tudo estava absolutamente diferente.




nuvem passageira

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Aparências

"A idéia de felicidade não é mais interna, como a dos monges, ou a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. Felicidade é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar alguém a ser consumido.
... Somos "felizes" dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, bagatelas, micharias. Uma alegria para nada, para rebolar o rabo nas revistas, substituindo o mérito pela fama. Essa infantilização da felicidade pela mídia se dá num mundo em parafuso de tragédias sem solução, como uma disneylândia cercada de homensbomba. Não precisamos fazer ou saber nada; o sujeito só existe se aparecer. "

Parte do texto de Arnaldo Jabor, A felicidade hoje é fechar os olhos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A dor que dói mais

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Velha Massa

Eu não tinha dormido quase nada naquela noite e tinha acordado cedo. Eram sete horas da noite e tentava dormir. Mas não tinha jeito. Vinham até meus ouvidos três tipos de sons diferentes. Da parte da frente da casa vinha um tipo de música eletrônica, dos fundos (bem atrás do quarto onde eu me encontrava) vinham gritos de um grupo de jovens, que tocavam Bob Marley no violão, com uma galera que cantava na mesma sintonia. De uma casa ao lado, nos intervalos de uma eletrônica ou de um Bob, vinha em alto som MPB.
Por um segundo me irritei. Odiava quando interrompiam meu sono, aquele momento tão precioso. Mas relevei porque entendia a alegria daqueles jovens, que assim com eu se reuniam com uma galera na praia, no meio praticamente do nada, numa sexta-feira, feriado.
Eles não precisavam de mais nada para justificar suas alegrias exacerbadas e notadas pela vizinhança. Estavam reunidos, celebrando a vida. Tinham seus amigos, um violão, a música que curtiam, bebidas e a festa estava armada.
Eu que por aquele um segundo havia me irritado, mas no instante seguido entendido aquele pessoal, agora pensava nos mais velhos.
Pensava que eles deviam estar indignados, pois provavelmente tinham fugido da cidade e do stress que ela proporcionava, em busca da tão desejada tranqüilidade, que não conseguiriam encontrar em meio a berros e músicas que vinham de todos os lados.
Eu conseguia entender eles, mas por outro lado eu refletia no que tinha levado aquelas pessoas tão festeiras (espero que assim tenham sido em suas juventudes), a se recolherem em seus habitates em busca de uma paz que “encontravam” depois da janta, sentados no confortável sofá assistindo a novela que passava pontualmente às nove horas da noite, na rede globo.
Eu me perguntava em que momento de suas vidas, no vai e vem do dia-a-dia, tinham perdido essa alegria tão própria dos jovens, ou das crianças, que também sabem se divertir tão bem.
Tinham cansado daquela animação? Ou estavam sendo arrastados por uma sociedade que diz que passado tal idade, chega o momento de se recolher, pois se tornaram ultrapassados e caretas?
Achava tudo aquilo um absurdo, cheguei a conclusão que eles se recolhiam porque não viam mais graça naquela folia toda. Preferia pensar que agora eles tinham afazeres mais elevados para realizar e que não podiam perder tempo organizando um reencontro com os amigos do passado ou com seus familiares.
Era mais aceitável do que crer que eles tinham se rendido ao tédio. E assim perdido uma coisa tão importante em suas vidas: a alegria.
Desisti de dormir, fui tomar um banho para me preparar para aquela noite, que prometia. Eu estava com grandes amigos e tinha motivos de sobra pra comemorar. Caso não tivesse, rapidinho inventaria mil motivos para um brinde.
Ia curtir aquela noite, cantar e dançar durante toda a madrugada, tenho essa alegria que compete a idade. Mas eu tinha um desejo, o de não perde-la com o passar dos anos. O de me tornar uma “velha massa”, daquelas que divertem netos e netas com histórias e brincadeiras. Eu não queria perder o brilho pela vida, ia tentar conservar não só meu rosto com dezenas de cremes anti-rugas, mas minha alegria, apesar do passar dos anos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Você

Eu não queria escrever sobre você, nem lembrar da sua existência. Adoraria esquecer todas suas lindas frases, ditas em momentos perfeitos. Talvez tivesse sido melhor não ter aberto espaço para conversas e risos. Não devia ter escutado suas aventuras, foi ali que percebi a existência de um moleque com um coração incrível, por trás daquele homem decidido. Quem sabe se você não insistisse, em me olhar tão profundo. Se não tivesse me dito tudo aquilo que eu sempre quis ouvir, tentando me conquistar. Talvez hoje eu não estaria escrevendo sobre você.


Mas escrevo pra tentar te entender. Me pergunto sobre o sentimento que dizia ser único na sua vida. Porque ligo o rádio, ouço uma música que me faz lembrar você. Enquanto caminho pelas ruas te vejo em cada detalhe da cidade. Quando penso na próxima estação, é você que chega, dominando todos os outros pensamentos. Escrevo para encontrar explicações sobre todas suas atitudes irrefletidas.


Mesmo sem compreender, escrevo pois você faz parte permanente dos meus pensamentos, e não consigo fingir para mim mesma, que nada aconteceu.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Diversidades

“Só podemos crescer, quando entendermos as diversidades.” Foi mais ou menos essa frase que Itamar Aguiar, um dos fotógrafos com que trabalho, me disse hoje, logo que cheguei. Ele é formado em Jornalismo, com pós em Artes, costuma realizar algumas palestras e durante elas, tem o hábito de citar frases do tipo. De acordo com o dicionário Aurélio, diversidade é: 1. Diferença, dessemelhança, dissimilitude. 2. Divergência, contradição; oposição. 3. Caráter do que, por determinado aspecto, não se identifica com algum outro. 4. Multiplicidade de coisas diversas.
Pensei um pouco a respeito, as pessoas são diferentes, mas é nessa diversidade de caracteres, de feitios, de humanidades que todos podemos crescer. Da última vez que escrevi, chutei o balde com “os conselhos”; sem querer me contradizer: quando se está confusa os conselhos não ajudam, em meio a tantas opiniões que não se coincidem. Porém é bom estar aberta às idéias das pessoas, ouvir muito, ler muito. Nem tudo se tira proveito, mas pode-se aprender muitas coisas com as diversidades, que acabam acrescentando pontos positivos em nossas vidas.
Por isso adoro ler, livros de gêneros variados, jornais, revistas, blogs. Ouvir as histórias das pessoas, escutar todo tipo de música, conhecer filosofias de vida, descobrir novas ruas, novos bares, ter amigos de vários estilos, conhecer muitas tribos, múltiplos jeitos de ser e de pensar.
A diversidade é uma forma de enxergar a vida de uma maneira ampla. Temos o poder de peneirar só as informações que valem a pena e assim somá-las com nossas experiências, para se tornar cada vez melhor. Que é o que no fundo todos desejam, se aperfeiçoar.