segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Velha Massa

Eu não tinha dormido quase nada naquela noite e tinha acordado cedo. Eram sete horas da noite e tentava dormir. Mas não tinha jeito. Vinham até meus ouvidos três tipos de sons diferentes. Da parte da frente da casa vinha um tipo de música eletrônica, dos fundos (bem atrás do quarto onde eu me encontrava) vinham gritos de um grupo de jovens, que tocavam Bob Marley no violão, com uma galera que cantava na mesma sintonia. De uma casa ao lado, nos intervalos de uma eletrônica ou de um Bob, vinha em alto som MPB.
Por um segundo me irritei. Odiava quando interrompiam meu sono, aquele momento tão precioso. Mas relevei porque entendia a alegria daqueles jovens, que assim com eu se reuniam com uma galera na praia, no meio praticamente do nada, numa sexta-feira, feriado.
Eles não precisavam de mais nada para justificar suas alegrias exacerbadas e notadas pela vizinhança. Estavam reunidos, celebrando a vida. Tinham seus amigos, um violão, a música que curtiam, bebidas e a festa estava armada.
Eu que por aquele um segundo havia me irritado, mas no instante seguido entendido aquele pessoal, agora pensava nos mais velhos.
Pensava que eles deviam estar indignados, pois provavelmente tinham fugido da cidade e do stress que ela proporcionava, em busca da tão desejada tranqüilidade, que não conseguiriam encontrar em meio a berros e músicas que vinham de todos os lados.
Eu conseguia entender eles, mas por outro lado eu refletia no que tinha levado aquelas pessoas tão festeiras (espero que assim tenham sido em suas juventudes), a se recolherem em seus habitates em busca de uma paz que “encontravam” depois da janta, sentados no confortável sofá assistindo a novela que passava pontualmente às nove horas da noite, na rede globo.
Eu me perguntava em que momento de suas vidas, no vai e vem do dia-a-dia, tinham perdido essa alegria tão própria dos jovens, ou das crianças, que também sabem se divertir tão bem.
Tinham cansado daquela animação? Ou estavam sendo arrastados por uma sociedade que diz que passado tal idade, chega o momento de se recolher, pois se tornaram ultrapassados e caretas?
Achava tudo aquilo um absurdo, cheguei a conclusão que eles se recolhiam porque não viam mais graça naquela folia toda. Preferia pensar que agora eles tinham afazeres mais elevados para realizar e que não podiam perder tempo organizando um reencontro com os amigos do passado ou com seus familiares.
Era mais aceitável do que crer que eles tinham se rendido ao tédio. E assim perdido uma coisa tão importante em suas vidas: a alegria.
Desisti de dormir, fui tomar um banho para me preparar para aquela noite, que prometia. Eu estava com grandes amigos e tinha motivos de sobra pra comemorar. Caso não tivesse, rapidinho inventaria mil motivos para um brinde.
Ia curtir aquela noite, cantar e dançar durante toda a madrugada, tenho essa alegria que compete a idade. Mas eu tinha um desejo, o de não perde-la com o passar dos anos. O de me tornar uma “velha massa”, daquelas que divertem netos e netas com histórias e brincadeiras. Eu não queria perder o brilho pela vida, ia tentar conservar não só meu rosto com dezenas de cremes anti-rugas, mas minha alegria, apesar do passar dos anos.

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