quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Os novos talentos literários

Para ser escritor é necessário ter a cabeça fervilhando de histórias, além disso, ser imune à desmotivação. Os novos talentos literários encontram dificuldades em fazer o manuscrito virar impresso, e as editoras arriscam pouco. Um dos fundadores da L&PM, Ivan Pinheiro Machado diz que tudo é difícil na primeira vez. "O mundo está cada vez mais competitivo e isto se traduz em um imenso funil para todos os iniciantes", confirma. Obstáculo, oportunidade, preconceito, talento, esperteza, fazem parte desta conquista.

As editoras seguem uma rotina para a apreciação de originais e obras interessantes, que exigem tempo para serem lidas e estudadas. Toda editora se programa para publicar um determinado número de livros por mês. Machado conta como funciona o projeto da editora que publicou a maioria dos autores gaúchos com algum sucesso nacional nos últimos 30 anos, entre eles, Mario Quintana, Caio Fernando Abreu, Martha Medeiros e Moacyr Scliar. Segundo ele, a L&PM recebe uma média de 100 originais por mês de todo o Brasil. Sem intimidação, ele revelou que a editora não espera um gênio pelo correio e que atualmente ler esses livros, não faz mais parte de suas normas. "A prática provou que 99% dos livros que chegavam via correspondência, não tinham nenhum interesse para a editora, pois eram de iniciantes, fraquíssimos, sem a menor condição de serem publicados", justifica.

Uma das funções de uma editora é estimular a produção intelectual. Comparável a uma biblioteca, uma sala de aula ou um laboratório, ou seja, divulgar as informações e conhecimentos que são produzidos. Em virtude do investimento que uma editora faz para lançar cada título, a escolha da obra é feita a partir de rigorosos critérios. Assim como qualquer outra empresa, ela está sempre preocupada em obter lucro para sua sobrevivência. A determinação de cada passo está diretamente ligada às expectativas de um resultado financeiro positivo.

A L&PM beneficia escritores que se destacam por prêmios ou pela mídia, seja através de jornal, internet, rádio, televisão. Machado afirma que faz parte do sistema publicar estreantes, mas admite que o melhor argumento de marketing ainda é a qualidade, a originalidade, pois é isto que chama a atenção. Ele deixa evidente sua opinião - de que uma editora não é uma fundação benemerente; e acredita que lançar novos autores é um papel do Governo, através de suas instituições culturais. "O Estado é o responsável por fazer esta triagem, promovendo concursos e bancando autores jovens e inciantes que não têm de imediato grande interesse comercial", afirma. Segundo o editor, a literatura é algo que depende, acima de tudo, do talento.

O professor e ministrante da Oficina de Criação Literária da Faculdade de Letras da PUCRS, Luiz Antonio de Assis Brasil não acredita que a literatura é algo que depende exclusivamente desta habilidade. "Como qualquer arte, o talento, se não tiver técnica, não se desenvolve e morre", define. Sobre o dom de escrever livros, ele acredita que isso é revelado durante a juventude - talvez pelo fascínio ao mundo, pelo gosto da descoberta, pela ingenuidade. Ivan Pinheiro Machado recorda que a história registrou casos em que o talento se manifestou em pouca idade, como exemplo o poeta frânces, Arthur Rimbaud, que escreveu toda a sua obra entre os 15 e 18 anos. Mas ao juízo de Machado, o talento não tem idade, e advertiu para o caso do jornalista português, José de Sousa Saramago, ganhador do prêmio Nobel e que iniciou na literatura contemporânea, após os 50 anos.

Assis Brasil supõe que as dificuldades que envolvem a conquista dos novos autores, são exclusivamente de ordem financeira. Quanto ao gênero literário, admite que a poesia, sofre com a aceitação das editoras comerciais. A respeito do interesse que às pessoas em geral têm em relação aos livros de estréias, o professor considera que apenas há simpatia quando o autor já é conhecido em outra área - seja jogador de futebol, jornalista famoso, político ou cientista.

Segundo Assis Brasil, o passo inevitável para um novato obter oportunidades frente ao mercado é o de contratar um agente literário. Profissão que não existia no Brasil há 10 anos, apesar de ser consolidado na Europa e Estados Unidos. "Nós estamos vivendo, no que tange ao mercado de livros, algo novo que são 'as' agentes literárias", acentua o escritor. Por curiosidade, as mulheres predominam neste setor nascente. Ele recomenda as agentes, especialmente para os alunos das oficinas literárias que desenvolve na PUC desde 1985.

Carlos Augusto Pessoa de Brum é seu próprio patrão

Normalmente o escritor escreve, o agente vende e o editor edita. Esta 'regra' não funciona para o escritor porto alegrense de 21 anos, Carlos Augusto Pessoa de Brum - que já desfrutou de sete lançamentos de livros. Ele conta que no início de sua carreira, aos 17 anos, recebeu atenção e suporte de algumas empresas, mas detestou o contrato: a cada livro de 20 reais vendido, receberia cerca de dez por cento. Foi então, que resolveu cortar os intermediários e criar sua própria editora, a Br1 Editores. Sendo seu próprio patrão, teve liberdade criativa que não teria em outro cenário, assim como total escolha e decisão sobre os livros. Ele prefere vender suas obras em escolas e eventos, onde pode interagir com os leitores.

Brum ratifica que não sofreu por ser novato, bem pelo contrário, o possível preconceito foi trocado pelo interesse devido à sua jovialidade. Ao participar de Feiras do Livro de diversos colégios, o fato de ser novo acabou sendo uma vantagem para ele, e um incentivo à leitura dos estudantes - que o vêem como um amigo, um ex-colega, e não exatamente como um escritor sério e intocável. Ele presume que o mercado está se abrindo, e que a qualidade da obra nada tem a ver com a data de nascimento do autor. "Algumas vezes, o escritor até perde seu fascínio com a idade, e deixa de produzir textos relevantes após realizar uma obra prima", conclui. A dificuldade do trabalho é fazer seu nome ser conhecido. No início, o estudante procurava lugares para se expor, e era difícil encontrar interessados. "Hoje em dia, felizmente, já recebo convites para participar de eventos e até mesmo sou pago para isso - algo impensável no início da carreira", declara com entusiasmo.

Com a simpatia das editoras, Brum buscou um especialista para lhe avaliar, e acabou falando com o próprio Luiz Antonio de Assis Brasil. Levou um calhamaço de folhas para o mestre ler, e algumas semanas depois, veio a resposta: "Realmente nunca vi alguém da tua idade escrever tão bem assim". Com este elogio exagerado, o aspirante notou que poderia seguir adiante. "Ter um patrono de tanto peso como o Assis Brasil na minha carreira foi ótimo, uma espécie de manobra decisiva para a publicação - senti estar no lugar certo", revela Brum. Segundo ele, o importante é sentir que o livro pode ser comprado em uma livraria, mesmo estando ao lado de outro com maior renome.

No momento da venda, dificilmente o produto de um noviço será reconhecido pela qualidade. Em geral, as pessoas desejam títulos que chamem a atenção, ou buscam algum autor distinto. Brum conseguiu destaque através das apresentações, estas foram feitas por nomes ilustres da literatura gaúcha, entre eles, Assis Brasil, Letícia Wierzchowski e Moacyr Scliar. "É aquilo de ter nome: se um escritor famoso assina seu trabalho, é porque ele acredita na qualidade de sua obra - isso serviu como um atrativo na divulgação de meus contos", confessa.

A internet e os inúmeros blogs ajudam os novos autores, e podem servir como exercícios de aquecimento. Neste quesito, Machado, Assis Brasil e Brum concordam. "A Internet auxília na medida em que o jovem autor pode jogar nos blogs toda sua produção e logo ter o retorno dos internautas. Isso não acontecia no passado", deduz Assis Brasil. Brum explica que a web serve como um instrumento valioso, onde é revelado talentos literários. "Conhecer um site e aprovar esta linguagem, substitui o método do livro grátis".

Um comentário:

Anônimo disse...

gostei bastante de seus contos!