sábado, 16 de outubro de 2010

Alguém assim

Eu quero alguém que me faça acreditar
Mesmo por um instante
Que o “felizes para sempre”, existe

Quero sentir saudades assim que me virar de costas para ir embora
Alguém assim
Que dê amor, carinho e afetos sinceros

Que me faça bem
E não deseje mais ninguém

Não precisa ser para sempre
Mas que sempre exista para mim.

Renata Moreira Gueresi

sábado, 9 de outubro de 2010

Roxo violeta cor de sagu

A porta da livraria amarela, com bonecos pintados na parede da fachada, encostou cinco minutos depois do previsto, exatamente às dezoito horas e cinco minutos. No fim daquela tarde de início de outubro, alguns clientes se movimentavam para apressar suas compras e sair da livraria Cassol, situada na frente do tradicional colégio Marista Champagnat, na movimentada Avenida Bento Gonçalves. Ali, trabalham nove colaboradores, além de seis estagiários. Neste dia e horário, restavam umas cinco pessoas, que organizavam o local e fechavam o caixa.

Uma jovem atendente, que aparentava estar no auge dos vinte anos, foi abordada sobre Léia. “A Cassol?”, investigou com surpresa e fez uma pausa, “ela não costuma vir aqui, não sei falar sobre ela” e apressou-se em sair, pois tinha um compromisso marcado para dali trinta minutos. Alguns segundos depois a porta se abriu e Léia Nagel dos Santos Cassol entrou. Subiu as escadas em ritmo acelerado e sentou à mesa de uma salinha, no andar de cima. Ali, haviam poucas pessoas, entre elas seu marido Gilmar Cassol e seu filho caçula, Luigge, de dez anos.

Aos 35 anos de idade, Léia era uma mulher de aspecto jovem. Parecia ter no mínimo cinco a menos, consequência da maneira de vestir-se, alegre, quase infantil. Com estilo despojado, usava blusa xadrez colorida, com cores fortes e vivas, como amarelo e rosa pink, calça jeans ligada ao corpo de 1,57 metro de altura. Seu cabelo estava realçado pela tinta roxo violeta, seu rosto apresentava pouca ou quase nenhuma maquiagem e sua expressão, outrora atenta, agora estava risonha. Ela começou a falar de si mesma.

Natural de São Miguel do Iguaçu, no estado do Paraná, seus pais trabalhavam em uma lavoura. Ela costumava torcer para que chovesse, pois quando a água caia do céu, era anunciada a alegria da menina. Nesses dias, o pai ficava em casa, dedicado a satisfazer o desejo daquela criança: ouvir histórias.

Cresceu em meio a livros, este era seu presente favorito e seus pais compravam todos que ela desejava. Viviam bem de vida, ela tinha tudo que queria - do bom e do melhor. Era filha única, sua irmã ainda não tinha nascido, assim, todas as atenções e mimos da casa, destinavam-se a ela. Mas não foi sempre assim. De uma hora para a outra, seu pai começou a ir mal nos negócios, então, decidiram se mudar de casa, de cidade e de país. O destino escolhido foi o Paraguai, lá o pai de família ainda tinha terra. Não pensaram duas vezes, se foram de muda.

A menina, que agora já era uma adolescente de 13 anos, levou tudo que tinha de mais precioso: sua diversa coleção de livros. No Paraguai não tinha muito o que fazer, nem lazer, nem estudo. Os livros eram sua diversão e faziam companhia nas horas solitárias. No Brasil, havia estudado até a 8ª série, motivada pela professora Edna, que a doutrinou por quatro anos consecutivos. No exterior, ficou sem estudar. Tornou-se amiga do padre Julio Sosterman, com quem mantêm relação de carinho até hoje. Graças a ele, foi inserida na comunidade onde viviam e ganhou prática na língua espanhola. Conseguiu convencer seu pai a deixá-la morar em Porto Alegre, sozinha, com a mãe do religioso.

Lá se foi, bem contente e realizada. Desde aqueles tempos já era uma pessoa independente e mesmo sentindo saudades da família, se virava bem sem ela. Poucos meses depois da chegada à capital dos gaúchos, conseguiu serviço em uma editora, – era datilógrafa – e também voltou a frequentar salas de aula, para cursar o 2º grau. Léia queria ser médica, mas com o tempo, deixou o sonho de lado. Neste período conheceu Gilmar, no início eram bons amigos. Passaram quatro meses na amizade colorida, mas logo assumiram o namoro, que durou aproximadamente dois anos.

Uniram-se através do casamento e constituíram uma família, formada por Gisella, a primogênita de 16 anos, espoleta e desinibida como a mãe, Thomas, de 14 anos, mais centrado e interessado em música, e Luigge, de 10 anos, que serve como avaliador do conteúdo infantil da livraria - tudo que chega de novo ele olha e dá sua opinião. Os filhos estudam na escola que fica na frente da livraria. Gilmar administra a editora e é responsável pelos filhos. Enquanto Léia trabalha com crianças, histórias e livros.

Ela atribui ao destino, o fato de ter entrado na literatura infantil. Tudo começou enquanto organizava feiras de livros em escolas pequenas, pela editora na qual seu marido trabalhava. Tinha contato com inúmeras obras e usava o tempo vago para ler o que podia. Conhecia muitas histórias e livros, assim indicava leituras para as crianças.

Léia resolveu se arriscar na ficção em 2003, escrevendo seu primeiro livro Um Dia Especial, inspirado na melhor amiga de infância, Fabíola; a obra também apresenta as belezas e encantos da cidade de Porto Alegre. Ela seguiu esse caminho e hoje tem quase 20 livros publicados. Léia gosta das suas criações de maneira idêntica, “Meus livros, são como os filhos, a mãe sempre gosta de todos da mesma maneira”. Mas Um Dia Especial, teve um brilho peculiar para os leitores. É seu maior sucesso e já vendeu 35 mil exemplares.

Muitas das crianças da cidade, menores de 12 anos, já leram seus livros, já ouviram falar dela e quem a viu, não esqueceu. Léia lembra uma boneca de pano, destas que qualquer menina gostaria de ter, porque tem jeito de amiga que está sempre disposta a brincar. Com as crianças Léia se sente em casa, a vontade o bastante para transformar suas histórias em peças de teatro, em músicas e danças com direito a coreografias e brincadeiras sem fim. Ela sobe na cadeira, fala o que vem à cabeça, dança sem constrangimento, faz as crianças rebolarem, se soltarem, para entregarem-se a história que ela se propôs a contar.

Passa a maioria de seus dias nas salas e auditórios dos colégios, em meio à garotada. Durante a época das feiras de livros, quase não para em casa, está continuamente participando de feiras na capital e nos municípios vizinhos. Com eles, se sente bem, faz o que gosta. Prefere escrever para as crianças, do que para os adultos. “Gosto desta sinceridade marcante entre os pequenos, eles falam o que sentem, e ainda participam, Os adultos dificilmente vão expor suas opiniões e ainda podem sair falando mal.”

A rotina de Léia também é composta pela faculdade de História – ela está no 2º semestre. Após ter se formado em Letras em 2006, resolveu continuar estudando, para atualizar seus conhecimentos. Quando consegue fugir da correria do dia a dia, gosta de assistir filmes de aventura e animação, catar relíquias em sebos, comer doces, dançar em festas e ler alguns dos seus autores favoritos: Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant. Entretanto, também gosta de Pedro Bandeira e Ruth Rocha.

Atualmente a autora vive sua melhor fase profissional. Após ter fechado um contrato com o periódico gaúcho Zero Hora, passou a contar histórias tradicionalistas nas páginas do jornal, durante a Semana Farroupilha. Isso trouxe mais visibilidade ao seu trabalho e maior reconhecimento por parte dos organizadores das feiras de livros. Agora todos querem que ela participe das feiras. Léia reconhece que sua aparição no jornal trouxe um aumento significativo nas vendas dos livros. Por conta da parceria, a escritora está lançando sua obra mais recente, pelo RBS Publicações, Marieta em coração de namorado.

Ela comemora seu momento: “Melhorou mil por cento”. Às vezes, em meio a multidão que está habituada, fecha os olhos por alguns instantes, para agradecer a Deus pela realização com a carreira. A editora Cassol cresce com cada leitor mirim que Léia conquista. A contadora de histórias celebra o tempo de progresso, assegura amar o que faz, e aspira continuar no ramo por muitos anos.

Frequentemente é indagada por sua legião de fãs: “Léia, porque seu cabelo ficou desta cor?”, ela apressa-se em responder, em tom de cochicho: “Ficou assim, porque comi muito sagu”. Indo por esta lógica, há dois anos, Léia comia muitas cerejas e anteriormente, muito doce de laranja. Léia pinta o cabelo e veste-se de modo alegre, para diferenciar-se dos demais escritores infantis e ganhar a atenção dos pequenos, que adoram novidades.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

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A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. (Horácio)